A arte, esse reflexo irisado da vida, não poderia, mesmo desde as suas primeiras e mais instintivas manifestações, negligenciar o estudo das inumeráveis metamorfoses do crime e da alma criminal na sociedade; não poderia ignorar o frisson passional que, em presença de um delito, subleva, na multidão, uma emoção vaga, incessantemente ampliada e atenuada na medida de sua amplitude - ou que provoca, na consciência do artista, a representação subjetiva de personagens misturados aos dramas da fraude artificiosa ou da violência sanguinária.
E a arte tem sido, por muito tempo, a única a tentar a figuração material ou a análise psicológica do delinquente. Se perseguiu, às vezes, esse duplo objetivo com uma intuição lúcida e genial da verdade humana, desviou-se frequentemente na expressão convencional de um mundo de idéias e de sentimentos imaginários, simples reflexos da consciência do artista.
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Até esses último tempos, os criminalistas não estudaram o delinquente. Concentraram sua atenção e todo o esforço de seus silogismos sobre o estudo do crime que eles consideravam, não como o episódio revelador de um modo de existência, mas simplesmente como uma infração às leis. Eles não viam, no delito, senão sua superfície jurídica e não sonhavam em procurar as raízes profundas no terreno patológico da degeneração individual e social.
fragmentos de texto extraído da obra de Enrico Ferri* edição francesa de 1908 (percebe-se claramente ser seguidor da teoria de Lombroso e sua antropologia criminal - para quem o crimonoso carrega consigo caracteristicas próprias que o levam aoo delito). Excetuada a valoração quanto ao mérito da teoria a maior benesse, nos parece, está em perceber a valia da arte enquanto expressão do meio, mesmo que as vezes sob o vértice mais utópico do ser; assim como na crítica ao modelo axiológico, desde muito, adotado para regrar e sancionar os crimes em sociedade.
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