terça-feira, 10 de agosto de 2010

Literatura e política

A mesa de maior repercussão na Festa Literária de Paraty (Flip) foi aquela que reuniu a iraniana Azar Nafisi e o israelense A.B. Yehoshua e que coube a mim coordenar. Tarefa fácil, dada a impressionante capacidade de comunicação dos dois escritores. Eu já conhecia A.B. Yehoshua pessoalmente e através da leitura de suas obras, mas encontrar Azar Nafisi, mulher elegante, culta, inteligente, corajosa, foi uma grata surpresa. Exilada nos EUA por causa de sua postura contra o regime fundamentalista do Irã, Azar Nafisi não hesita em dizer o que pensa. O momento é oportuno; nestes dias, o mundo inteiro discute o caso da viúva Sakineh Mohammadi Ashtiani, que, acusada de adultério, foi condenada à morte por apedrejamento ou enforcamento (e ela não é exceção; neste fim de semana, um jovem iraniano recebeu a pena capital por homossexualidade).

O caso Sakineh representou um desafio para o governo brasileiro, que nos últimos tempos tinha se aproximado do Irã. A cobrança ao presidente Lula não tardou. Em sucessivas entrevistas, ele falou sobre o assunto. O que envolve riscos, dos quais Lula não escapou. De início, disse que, como presidente, não poderia se intrometer e pedir a libertação de presos para não transformar a relação com outros países em “uma avacalhação”. A reação no Brasil e no mudo não foi boa; afinal, trata-se de uma vida humana, não de “avacalhação”, coisa que mais adiante Lula reconheceu, ao dizer que, como cristão, não achava certo “alguém ser morto apedrejado por traição”. E acrescentou que, se Sakineh deixava o seu amigo Ahmadinejad desconfortável, este poderia “mandá-la para o Brasil; nós a receberíamos de braços abertos”.

Para Azar Nafisi, esta postura não é suficiente. Em termos candentes, afirmou no debate que Sakineh não estava “perturbando” ninguém; ao contrário, estava sendo “perturbada”, e, mais que “perturbada”, ameaçada de forma aterrorizante.

Não preciso dizer que o auditório veio abaixo com os aplausos. Sakineh é vista hoje como a vítima mais conhecida de uma brutal intolerância; há uma mobilização mundial para salvar-lhe a vida. Azar Nafisi, que, em escala muito menor, sofreu as consequências de suas atitudes independentes (foi desligada da universidade em que lecionava literatura por recusar-se a usar o véu), só poderia mostrar-se solidária com esse movimento que certamente fará História. Uma coisa da qual Lula, que afinal tem um passado de luta pelos direitos humanos, sabe perfeitamente; vacilações e imprecisões à parte, mostra-o sua segunda entrevista.

Azar Nafisi, e também A.B. Yehoshua, e Salman Rushdie, e Terry Eagleton, entre outros, mostraram na Flip que escritores podem representar a consciência viva de seu tempo, a exemplo de Émile Zola que, em Eu Acuso (1898), denunciou o antissemitismo francês no rumoroso caso Dreyfus, no qual um oficial do exército, judeu, foi falsamente acusado de espionagem em favor da Alemanha. “A festa da crítica”, disse ontem a Folha de S. Paulo em manchete. A Flip não foi só festa da crítica, houve mesas clássicas sobre o fazer literário, e sessões de autógrafos, e shows, e exposições, mas, de fato, o debate intelectual esteve muito presente. E isto mostra a importância que tem esse belo evento em nosso cenário cultural.

*Texto de Moacir Scliar publicado no jornal ZH do dia 10/08/2010

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